1
Homem bobo:
corre, concorre, mata.
Vida de lobo.
2
Manhã à mão.
Sol busca o céu.
Glorioso sertão.
3
Busca sem fim.
Pelejo busco e acho
um brilhante sim.
4
Longa obra:
Polir, insistir, descartar:
dizer sem sobra.
5
Penetrante atuar.
Um, dois, três.
Ménage à trois.
6
Aquosa jornada.
Ele peleja, labuta.
Quase nada.
7
Incompetente réu:
recebe pronto o verso
e nada de papel.
8
Leio, rondo,
de Gabriel García Márquez,
a triste Macondo.
9
Futebol de garoto.
Garrincha vai, vem.
O gênio é torto.
10
Escancarado, o gol.
Milhões prendem a respiração...
O craque errou.
11
Inevitável ruga.
Será ela, do tempo,
o prêmio ou a rusga?
12
Madrugada serena.
De manhã, acorda o lírio,
agradece a açucena.
13
Mitiga o carinho.
Depois, açula, atenta.
Sou facinho.
14
Orvalho preci(o)so.
De cada gota, bebo
tudo de que preciso.
15
O professor ensina.
A aluna aprende, olha.
Amorosa sina.
16
Tiro certeiro.
Lesada, a medula desiste.
Resiste o guerreiro.
17
Amor, é segredo:
súbito, perder você...
Bobo medo.
18
Chuva mansa.
Vertical, gota a gota,
o universo dança.
19
Calor certeiro.
De repente, chuva; da terra,
bebo o cheiro.
20
Livro bom.
Folheio, cheiro, leio:
acerto o tom.
21
Livro: tato,
audição, visão, paladar
e cheiro nato.
22
Simples cobiça:
ver-me livre, sempre,
de minha preguiça.
23
A vida enguiça.
Enrolo, paro, cedo.
Triste preguiça.
24
Vida escura.
Vem a noite e me cobre
de estrela e ternura.
25
Escuro aqui.
À noite, amo a noite
e a luz de ti.
26
No breu da noite
cintilam o medo, o terror.
Medonho açoite.
27
As horas nuas,
são todas elas
somente tuas.
28
Branca mágoa.
No escuro, os olhos
marejam água.
29
Passe de mágica.
Dobro a esquina, levito:
fada fantástica.
30
Chuva que vai.
Deixa de brinde na goteira
nítido haicai.
31
Bendita fresta.
Sol vem de longe,
faz a festa
32
Exata fenda.
A gala, o charme e o vestido
que a mão desvenda.
33
Encaixe de luva,
meu corpo em tua
formidável vulva.
34
Eu perduro,
desde que esteja sempre
em Porto Seguro.
35
A manhã somente
destrói forte a tristeza
da madrugada inclemente.
36
Amor guloso.
Nos cômodos, suores e roupas.
Na cama, repouso.
37
Nada de marasmo.
Homem teimoso engendra
teimoso quiasmo.
38
Sonora alegria.
Emoção, flor, pele.
No ar, melodia.
39
Pudesse, comporia
luz, harmonia, ritmo
e canora melodia.
40
Céu de anil.
Manhã, beleza, silêncio...
E ninguém vil.
41
Doce chuva.
Lençol, cama e limpeza.
Encaixe de luva.
42
O cão late.
Madrugada de chuva traz
“A letra escarlate”.
43
Canta a cigarra,
chuva cai de leve.
Adorável farra.
44
Úmida alma.
Espero, anseio, temo.
Chuva me acalma.
45
Escrevo; goteira.
Nuvem prova ter
mirada certeira.
46
Chuva de ideias.
Chove suave lá fora.
Doces melopeias.
47
O galo amanhece.
Abro a janela, contemplo.
Muda prece.
48
Convincente prece.
Amanhecer: profusão de beleza
que o silêncio tece.
49
Sangrenta, a terra.
No oceano, há vagas.
Ninguém erra.
50
Tenaz boêmio,
chova ou faça estrela.
À noite, o prêmio.
51
Olhos em livro.
Supero, então, da felicidade,
o exigente crivo.
52
A palavra salva.
Pego papel e encho
a folha alva.
53
À noite, cismo.
A estupidez, o bandido, o medo...
Fundo abismo.
54
“Adeus”, disse.
Partiu, sumiu, voltou.
Inútil crendice.
55
Dobra o sino.
Dobro a esquina, a alegria,
feliz repentino.
56
Vem ideia,
idéia vai e vem.
Melíflua colmeia.
57
Melodiosa festa.
Madrugada adentra; escuto
o ressoar da seresta.
58
Dia e noite,
surra, tortura, amedronta.
Infindável açoite.
59
Fazem os gatos
amor, barulho e gatinhos.
Amantes natos.
60
Muita gente.
Soam o ritmo, as cordas.
Viola plangente.
61
Azar no xadrez,
sorte e sucesso com as damas.
Jogo pedrês.
62
O sertão escurece.
Céu, terra... Belezuras.
Natural finesse.
63
Mútuas lérias —
decidem dar um tempo.
Amor em férias.
64
Cai o céu.
Gota a gota, cai.
Puro escarcéu.
65
Gotas que compus:
estrelas enchem o céu.
Luzentes anos-luz.
66
Cai a chuva.
Acorda e vira, na terra,
a doce uva.
67
O instante fugaz,
quero retê-lo, guardá-lo.
A fotografia mo traz.
68
O instante fugaz,
quero retê-lo, guardá-lo.
O haicai mo traz.
69
Oralmente simultâneos.
Somos afã e nudez,
linguagem e subterrâneos.
70
Lufada esperta.
Procura, escolhe a saia
e as pernas desperta.
71
Namoro oculto.
Estratagemas, dribles, decoro.
O amor, um vulto.
72
Amorosa fé.
Teu corpo, templo,
minha sé.
73
Fico em cima.
Aço, martelo, bigorna.
Parnasiana rima.
74
Acordo, reluto.
Quanto desisto, morro.
Temporário luto.
75
Recalcitrantes nós.
Nós — eu e você —
quando a sós.
76
Lê e aguarda.
Leituras, papéis, ideias...
Palavra semeada.
77
Ela fica.
Doa-se, transpira, inspira.
Rima rica.
78
O artista, cedinho,
mede, molda, aguarda:
pão quentinho.
79
Do chato terno,
faço adjetivo e preencho
livre o caderno.
80
O sábado receita
bar, comida, amigos.
Noite perfeita.
81
Triste açude.
Saudade daquela chuva
que caía amiúde.
82
O corpo recita.
Os versos vêm dela.
Linda dita.
83
A palavra exata,
o homem procura, esculpe.
O tempo acata.
84
Silêncio branco —
nenhuma palavra no sulfite.
Nada arranco.
85
Homem lasso.
A vitória dura um segundo.
Depois, fracasso.
86
Tenho gana.
Em vão — ele tem
a linda Ana.
87
Nada de raças.
Quero apenas gentes,
fornidas massas.
88
Eloquente sim.
Eu sou teu,
e gosto assim.
89
Mundo gigante.
Reparo, escuto, vacilo.
Então, adiante.
90
Mutante raça.
Hoje, nada presta.
Amanhã, graça.
91
Momento ótimo.
A seguir, guinada, susto,
tudo num átimo.
92
Passeio rotundo.
Andei longe; agora,
em casa, o mundo.
93
Doce manha.
Mansamente, chega, sussurra.
E muito ganha.
94
Desenha a linha.
Diverte-se, joga, pula.
A brincadeira: amarelinha.
95
Puxa, estica.
Menino solto no céu —
livre pipa.
96
Migração repetida.
Tesourinha corta o vento:
hora da partida.
97
Gruta de Maquiné.
Lá, Peter Lund,
escura é a fé.
98
Tenho medo:
ele dorme comigo
e acorda cedo.
99
Íntimo serralho:
cada macaco quebra
seu galho.
100
Doce arrebol.
Faço melodia e arranjo
réstia de sol.
101
Árdua lei:
a isto, que rápido leste,
tempo dediquei.
102
Serpenteado arrebol.
Caminho, contemplo, reverencio.
Caminha o caracol.